Nas regiões da fronteira em terra, ainda é possível rastrear o tráfico, descobrir sua origem e pressupor seu destino, mas quando o tráfico é feito por mar, sobre águas profundas e para terras longínquas torna-se praticamente irrastreável.
Assim é feito com a Ciência, produto valioso transportado intensamente através da fronteira nos dias atuais na mais completa clandestinidade. A Ideologia Científica é sempre traficada para terras distantes através dos mares.
Dada a grande experiência de nossos marujos que compõe a tripulação da Corveta Sabot, e de várias incursões ao golfo de Aden para resgatar piratas somalis, que estavam cercados por forças de coalisão internacional em meio a sequestros, ou mesmo com homens ao mar tendo perdido suas embarcações durante os saques, obtivemos informações sobre o tráfico clandestino que ali se instalou desde o século VIII a. C., quando foram estabelecidas as vias marítimas da Rota da Seda naquelas águas. Tais informações foram vitais para que pudéssemos rastrear o tráfico da ideologia científica em terras de Europa, desde os tempos do remoto Império Romano, até o Renascimento.
A ideologia científica tem sua origem nos antigos gregos pré-socráticos, também chamados de naturalistas, ou melhor expresso de acordo com língua grega antiga, physikos.
Eles estudavam a Physis, entendida como a realidade primária, originária e fundamental das coisas e dos seres, em oposição àquilo que é secundário, derivado e transitório. O pano de fundo de suas especulações eram os problemas cosmológicos e cosmo-ontológicos, buscando os princípios (ou Arché) das coisas.
Então veio Sócrates (e seu discípulo Platão), causando uma ruptura no pensamento filosófico helenístico, centrando no Homem todas as indagações.
Enquanto os physikos se perguntavam coisas do tipo:
- O que é a natureza, ou o fundamento último das coisas?
Sócrates estava refletindo as indagações em termos de:
- O que é a natureza, ou a realidade última do Homem?
Sócrates, apesar de ter sido um sábio memorável e ter rompido neste aspecto, não divergia muito do pensamento dos seus contemporâneos, exceto pelo desapego aos bens materiais e pelo seu carisma e genialidade que acabaram lhe condenando à morte sob acusações esdrúxulas feitas pelo tradicionalismo vigente, como aconteceu com muitos outros que o sucederam na história da humanidade.
Sócrates não negou as idéias dos physikos, apenas chamou a atenção a outro questionamento importante:
"Conheça-te a ti mesmo"
Pois a natureza, era entendida em relação à realidade última do humano e não o fundamento último das coisas.
Sem querer acusar um sábio e bem intencionado mestre, foi Sócrates quem proporcionou um dos maiores enganos da humanidade, pois a falta de discernimento dos pensadores que o sucederam séculos depois interpretou o pensamento socrático de maneira contraposta ao pensamento daqueles que o antecederam, os physikos.
Muitos séculos depois eram poucos que ainda eram capazes de entender isso, que não se deve separar o conhecimento do "Homem" e o conhecimento da "Natureza". Esta cisão em disciplinas já estava estabelecida exceto para alguns sábios, como por exemplo, William Blake, o poeta inglês do século XVIII, que demonstra sua clareza num dos famosos "Provérbios do Inferno":
Onde não está o homem é estéril a natureza.
O desengano dos pensadores, que era claro a Blake, tomou forma com o estabelecimento da língua latina como língua oficial do Império Romano.
Uma tradução tendenciosa da palavra Physis, do grego para o latim foi a maior de todas as manobras clandestinas que faz da Ciência ser uma das mercadorias valiosas traficada intensamente, de maneira completamente clandestina, pela fronteira.
Nos dias de hoje as pessoas refletem pouco sobre a concepção de Natureza e certamente não tem a mesma concepção dos antigos physikos gregos.
Quando dizemos nos dias de hoje
"Física é a Ciência que estuda a Natureza".
pouco nos damos conta de quanta coisa têm aí.
Natureza vem do latim natur, algo como "aquilo que é nascido". Lembrem-se da expressão Natura Mater: Mãe Natureza.
Note que as palavras Mãe e Matéria tem ao mesmo radical no latim: Mater.
Uma Mãe só pode receber este "título" porque têm um filho. É quando algo é nascido, materializado a partir da mulher é que ela se torna uma Mãe.
Física vêm do grego antigo Physis, entendida como a realidade primária, originária e fundamental das coisas e dos seres, como já foi dito. Para os physikos a Physis era como um princípio dinâmico e emergente de todas as coisas. Seria algo traduzido como "gênese, origem, constituição, manifestação", e o problema da Physis seria entender a origem e constituição de todas as coisas.
Naquele tempo Physis não era contraposto a Psiqué (sopro, mente, espírito). O humano também era um problema da Physis, apesar de os pré-socráticos estarem mais preocupados com cosmologia.
Ao traduzir a palavra grega Physis para a palavra latina Natura foi ceifado um bocado deste sentido.
Natura, que significa aquilo que é nascido, entra em contraposição com a sociedade patriarcal, com aquilo que é criação do homem. Natureza acabou como algo a ser dominado pelo homem, pela sociedade.
Parece que o verdadeiro paradigma que domina todo o pensamento ocidental e determina a forma positivista que a ciência vêm assumindo a muito tempo é algo aquetípico da natureza humana, e das civilizações desenvolvidas: um deus pai único no céu.
Traduziram physis por natureza e passaram a incluír na física somente o mundo material, no sentido positivista estrito, ficando a humanidade cega a uma realidade emergente. Heidegger explica bem isso também.
Observe o estranhamento que causa dizer "uma Deusa mãe no céu" e "o Pai Natureza aqui na terra".
Parece que os paradigmas da ciência estão enraizados em coisas bem mais profundas que um processo histórico e articulações entre a Ciência, a Tecnologia e a Sociedade!
Pouca gente se dá conta que tanto "Átomo" quanto "Deus" são apenas conceitos em nossas mentes. Ambos são apenas veículos para transportar a energia da vontade humana que movimenta nossa existência.
Já que o assunto chegou a esse ponto dá até vontade de falar sobre o Bóson de Higgs, mas é melhor eu parar por aqui, antes que eu consiga ser queimado na fogueira pelos meus colegas "cientistas" em pleno século XXI. Achamos o buraco negro lá no céu e eis que a partícula-deus aparece aqui na terra, em túneis subterrâneos!
Fomos longe para inverter a posição da morada divina e do inferno abissal: A maior de todas as manobras de alavanca foi utilizada.
Será que teria sido possível encontrar o bóson de Higgs antes de ter encontrado o buraco negro no centro da via láctea? Deus nos presentearia com sua visita se não tivéssemos varrido o inferno para longe daqui antes disso?
Essa tradução mal-feita de "physis" para "natura" não foi só um engano, nem foi articulada no meio social. Essa tradução aconteceu no mais profundo da natureza humana, na altura em que o escolasticismo estava falindo e as explicações passaram mais a ser em termos de princípios ao invés de finalidades.
Essa mudança de finalidades para princípios só disfarçou as finalidades com uma camuflagem feita pela linguagem. No fundo, o desejo de relinhar a realidade conforme a vontade permaneceu, permitindo que este desejo coletivo também pudesse ser articulado em ações coletivas numa escala maior.
Agora também sentimos a natureza numa escala maior, quer tenhamos interferido muito nela ou não. Seja lá o que for, o que interessa é que sentimos o clima do mundo inteiro agora e qualquer mudança, tenha sido provocada pelo homem ou não, toma maiores dimensões, na mesma ordem de grandeza de nossas empreitadas.
Qualquer "problema" causado por mudanças climáticas some se reduzirmos a escala da empreitada humana, não interessa o quanto queimamos carbono, derrubamos florestas ou extinguimos espécies.
O verdadeiro problema é que estamos lidando com "physis", mas insistimos em tratar por "natura".
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