sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sobre o dentro, o fora e as fronteiras solúveis que os dividem

É na fronteira entre o interior e o exterior que tudo acontece. Das fossas Marianas no Pacífico (a uns 13 km de profundidade) ao pico Everest (a uns 9 km de altura) tem uma camada de 22 km onde toda a vida na Terra habita. Uma tênue fronteira entre o interior e o exterior de uma esfera de 6400 km de raio.

O que é uma fronteira? Se isso fosse perguntado a um rei europeu da idade média ou a um senhor feudal ele diria que seria o perímetro de suas terras, até onde seu exercito alcança. É na fronteira que começam os enfrentamentos numa guerra. É ali que se estabelece a primeira frente de batalha, o fronte.

As palavras fronteira, frente e fronte tem o mesmo radical. Estas palavras vem do francês FRONTIÈRE, “limite, fronteira”, do Latim FRONS, “testa, sobrancelha, fachada”, “parte mais à frente”.

Há quem diga que a fronteira entre o interior e o exterior do corpo humano é a pele, que todo pensamento racional reside na parte frontal do cérebro. Mas se esquecem do espaço social, das línguas e da linguagem corporal.

Toda fronteira tem uma largura e, dentro dela e através, acontece todo tipo de atividade clandestina. Fronteiras não vigiadas se alargam num território de leis frouxas e emergentes. A fronteira entre o interior e o exterior do humano é a fronteira entre a natureza e a cultura.

Clandestino é aquilo com um destino escondido, secreto. Do Latim CLANDESTINUS, “escondido, secreto”, de CLAM, “às escondidas”. As atividades clandestinas na fronteira são as travessias cujo destino é velado.

O inconsciente não vigiado, fronteira entre a natureza e a cultura, se alarga fazendo fronteira de um lado com o inconsciente pessoal e mais adiante com o consciente. Do outro lado faz fronteira com o inconsciente coletivo, fazendo o dentro e o fora do humano ser indistinguível no todo.

A fronteira que divide o humano entre o dentro e o fora se confunde com o ponto de referência do eixo natureza-cultura e o dentro e o fora dependem da visão de mundo e de si dualista que o indivíduo tem: ele é um espírito que habita um corpo ou um corpo que contém um espírito, uma mente que comanda um corpo ou um corpo que possui uma mente?

Em se tratando da mente, da consciência de um sujeito com uma visão de mundo e de si dualista, dentro e fora não são bem definidos e são relativos, mesmo que o sujeito pense que não são relativos assim.

A língua, materializada através de seus instrumentos como, por exemplo, a palavra, formam lastros externos para a cognição intrasubjetiva, além de servir de mediador da comunicação intersubjetiva. Entre sujeitos a fronteira é vasta e o tráfego ocorre pelos mais diversos protocolos de comunicação. As imagens arquetípicas ligam sujeitos no espaço e no tempo formando uma vasta e larga fronteira onde ocorrem atividades inomináveis.